quinta-feira, 14 de abril de 2011

A grande traição que traumatizou o técnico Paulo Roberto Falcão…

Eu vi Paulo Roberto Falcão de olhos vermelhos, envergonhado.

Acompanhei a elegância com que aceitou ser traído.

Sem escândalos, palavrões.

Era 1991.

Estávamos no Chile.

Copa América.

Dizem que a história se repete o tempo todo.

E Ricardo Teixeira fez com ele o que faria com Dunga 20 anos depois.

A seleção brasileira foi uma baderna em 1990.

Lazaroni não conseguiu evitar a formação de enormes e poderosas panelinhas.

Grupo de cariocas odiava paulistas que detestavam mineiros.

E todos queriam muito dinheiro.

A CBF trocava de patrocinadores e cada um queria o seu quinhão.

O Brasil fracassou na Itália com direito a Maradona fazer o que quiser com o time.

Até dar o passe fatal para Cannigia...

Traumatizado com o fracasso na Itália, Ricardo Teixeira queria 'limpar', moralizar a Seleção...

Como tentaria fazer com Dunga depois do fracasso na Alemanha...

E deu o cargo para Paulo Roberto Falcão...

Ele assumiu a seleção com a missão de buscar novos atletas...

Foi proibido de convocar atletas que estiveram no Mundial de 1990...

Logo na sua primeira disputa oficial...

A Copa América do Chile...

"O presidente Ricardo Teixeira me garantiu que fosse qual fosse o resultado, eu ficaria no cargo.

O importante era buscar novos jogadores para a seleção.

E foi o que eu fiz", me disse Falcão depois da Copa América.

A vontade de Teixeira de controlar o time era imensa...

Tanto que obrigou os jogadores a seguirem uma cartilha de comportamento...

O novo técnico teve de entregá-la aos atletas...

Nela ficava claro que o assunto patrocínio da Seleção só dizia respeito à CBF...

O time tinha de aceitar qualquer premiação que fosse oferecida, sem direito a contestação, como em 1990...

Falcão não veio sozinho para a seleção.

Levou como o jornalista Vital Bataglia como assessor de imprensa...

Esse foi o seu erro...

Bataglia fez carreira como repórter combativo do Jornal da Tarde de São Paulo...

Ele sabia como funcionavam os bastidores da seleção brasileira...

Os órgãos de comunicação que sempre tiveram favorecimento...

Os jogadores convocados, os cortados...

Bataglia tratou de enfrentar os privilegiados.

Ninguém mais teria a lista de atletas antes do que os demais órgãos de comunicação...

Ou notícias exclusivas, como a contusão de um atleta...

Bataglia teve muita coragem, mas nenhum jeito...

Ríspido ao extremo, foi criando inimigos poderosos no jornalismo esportivo brasileiro...

E na CBF...

Essa péssima relação acabou atingindo quem ele mais queria proteger: Paulo Roberto Falcão...

Foi esse o principal motivo pela sua queda...

Não o vice-campeonato no Chile...

O título foi merecido.

Ficou com a seleção argentina que era muito melhor do que a Brasileira...

Teixeira foi pressionado por representantes de órgãos de imprensa poderosos...

Todos queriam as cabeças de Falcão e de Bataglia...

E elas foram entregues...

Teixeira ainda deu uma chance ao treinador.

Falcão confessou: ele queria a lista dos convocados para qualquer partida para analisar...

E para vetar quem não quisesse...

Ou para incluir quem acreditasse ser necessário...

"Eu não aceitei porque sabia que os nomes iriam vazar na imprensa.

E não poderia submeter a seleção ao sim ou não de Teixeira", revelou anos mais tarde...

Ainda lembro a fisionomia abatida de Falcão ao saber da demissão...

Consegui uma entrevista importante com ele logo após a sua saída...

Estava magoado, fora traído...

Mas, elegante demais, poupou Ricardo Teixeira...

Relevou a triste situação...

Inteligente, perdoou também a ingenuidade de Vital Bataglia na sua quixotesca briga contra os privilégios...

Dentro de campo, Falcão realmente buscou o ataque com a seleção...

Mas seus jogadores eram verdes demais para tanta pressão...

Só que foi o primeiro a apostar em Cafu, Mauro Silva, Márcio Santos...

Vale a pena lembrar essa enorme decepção de Falcão com a seleção...

Ela o influenciou a não dedicar o mesmo amor ao cargo de treinador ao que tinha como jogador...

Depois da seleção brasileira, perambulou por América do México, Inter e seleção do Japão...

Mas sem o mesmo entusiasmo...

Seu batismo havia sido pesado demais...

Tanto que levou 16 anos para voltar a trabalhar como treinador...

Do seu amado Inter...

Sem terrorismo algum...

Poderá fazer o que quiser...

Mostrar a sua capacidade...

Sem precisar favorecer ninguém...

Enfrentar sozinho a pressão dos poderosos para escalar ou vetar jogadores no seu time...

Este é o renascimento que Falcão merecia...

Claudio Coutinho desprezou o excepcional volante em 1978, na Copa da Argentina, em uma das maiores injustiças da história...

Chorou com fantástico time de 1982, de Telê Santana...

E depois a CBF massacrou em 1991...

A seleção brasileira nunca tratou bem o mais elegante dos nossos jogadores...


Fonte: http://esportes.r7.com/blogs/cosme-rimoli/tag/falcao/

Autor: Jornalista - Cosme Rímoli